Comitê participa de debate sobre megaeventos na Semana de Arquitetura e Urbanismo da Unicamp

*Texto originalmente publicado no Jornal Popular da Copa, edição n.03

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No dia 18 de setembro, o Comitê Popular da Copa SP participou de mais um debate, desta vez em Campinas, na Semana de Arquitetura e Urbanismo (SAU 2013), organizada por estudantes da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da Unicamp. As atividades da Semana, buscando uma resposta à pergunta “o que a cidade guarda?”, foram divididas em eixos temáticos: cidade informal, cidade da especulação, cidade para pessoas, cidade para poucos, cidade ideal e, para o qual o Comitê foi convidado, cidade dos eventos.

A opção por questionar os impactos dos megaeventos (Jogos Pan-americanos, Olimpíadas, Copa do Mundo, possivelmente a Expo-2020 etc.), que vêm norteando política e economia brasileiras, levou à mesa de debate Nelson Souza, representando do Comitê Popular da Copa SP, Paula Santoro, a arquiteta urbanista da FAUUSP, e o representante do Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos, Geilson Sampaio.

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A arquiteta questionou a flexibilização das decisões e das leis sob demanda dos megaeventos, destacando as inúmeras irregularidades na construção da arena Itaquerão, escolhida para sediar a abertura da Copa do Mundo da FIFA em 2014. Segundo Santoro, o uso de recursos públicos na construção da arena sustenta a “lógica do espetáculo, a qual beneficia apenas o interesse privado. Fez uma crítica ao “legado da Copa”, tomando como exemplo cidades que já sediaram eventos da mesma ordem, como Sidney, Barcelona e África do Sul: dívidas advindas de empréstimos, gentrificação, despejo de inquilinos, falta de mecanismos de participação popular no planejamento urbano etc. Entre as irregularidades do projeto, apontou a imprecisão e falta de informações sobre a construção do Itaquerão, o impacto na região causado pela arena multiuso (destinada a atividades que mobilizará multidões, como jogos de futebol e shows) e sua incompatibilidade com o caráter residencial da região, a dificuldade de acesso por vias públicas, o deslocamento de dutos da Petrobras (do terreno da arena para as proximidades do conjunto habitacional vizinho) e seu licenciamento ambiental improvisado, a falta de documentação do Corpo de Bombeiros aprovando o projeto e a construção da arena sobre um rio canalizado subterrâneo, que está próximo de seu limite de vazão.  Santoro chamou atenção também para os impactos no entorno da arena, como os projetos viários, a implementação do plano de desenvolvimento da Zona Leste (que existe desde a década de 1970, mas só está sendo colocado em prática agora) e as remoções de famílias que até hoje vivem em habitações precárias, sendo todas essas obras visando o desenvolvimento da região a fim de viabilizar o uso do estádio pela FIFA, embora prefeitura municipal e governo do estado neguem qualquer relação entre todas essas obras e a Copa-2014.

O auditório, repleto de estudantes de engenharia e arquitetura, assistiu à fala de Nelson Souza que, além de membro do Comitê, compõe a luta com movimentos por moradia digna na capital paulista. Souza entrou no debate apontando a importância da participação popular na conquista de seus direitos, uma vez que eventos de grande porte têm sido administrados por governos que servem ao interesse de construtoras e grandes empresas, além de serem financiados pela população, enquanto não há nenhum projeto que beneficie o povo. “Será que o povo terá que fazer seu próprio projeto?”, perguntou Souza ao auditório. Colocando-se contra projetos que beneficia apenas a aristocracia brasileira à revelia do interesse público e à custa de seu financiamento, concluiu sua intervenção enfatizando: “coragem e raça é o que constrói o projeto popular de nosso país”.

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Geilson Arruda, que também é membro do Comitê Popular da Copa SP, falou sobre o papel do Centro Gaspar Garcia na articulação da luta por moradia e dos ambulantes por seus direitos e pela construção de políticas públicas. Apresentou um panorama dos problemas que vêm sendo pautados pelo Comitê, dando destaque às remoções de famílias e violações de direitos, principalmente referentes à moradia, em comunidades localizadas em sítios destinados a obras que visam melhorias para a Copa-2014. A participação do Comitê foi reforçada por outros membros que também se deslocaram de São Paulo a Campinas para enriquecer o debate, que fizeram seus relatos de como os ambulantes são deixados de fora do processo de planejamento dos megaeventos (a exemplo da Lei Geral da Copa, que prevê zonas de exclusão em que somente poderão ser vendidos produtos por pessoas licenciadas, sem qualquer consulta aos ambulantes e a seus fóruns de decisão) e também como vem crescendo o tráfico sexual e a prostituição em todo Brasil, alimentados pelo turismo que cresce cada vez mais com a onda dos grandes eventos.

Ao final, o debate rumou para a valorização da participação popular e o questionamento do modelo de representação política, visto que o interesse do povo não é contemplado por quem toma as decisões, que favorece apenas alguns poucos que lucram com os recursos públicos destinados ao financiamento dos grandes eventos. Esse rumo provavelmente foi resultado do encontro entre movimentos populares e a Academia que, juntos, puderam refletir sobre as possibilidades de participação popular em um planejamento urbano que contemple o interesse de todas e todos.

http://sauunicamp.wix.com/sau2013

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