No mínimo, queremos o máximo

*Este texto foi originalmente publicado no Jornal Popular da Copa, edição n. 02 

Se tu lutas, tu conquistas, tipo assim.

(SNJ – Somos nós a Justiça)

Quando a primeira proposta apareceu, 80 mil pela casa construída havia já 50 anos ali, Gerê ainda estava na faculdade. Rotina cheia, saía cedo pra trabalhar, estudava à noite, ficou sabendo através da mãe. “Vamos perder nossa casa, meu filho”, dizia atemorizada aquela senhora, mais de 60 anos nas costas, que ali cresceu e ali criou a ele e aos irmãos. Já tinha escutado antes que a nova linha do metrô passaria por ali, desapropriaria aquelas pessoas, mas com as mudanças políticas no governo e na CBF que tiravam o Morumbi da Copa do Mundo imaginou que aquela obra não sairia do papel. Assim, demorou a acreditar nos boatos, e tratou de tentar tranquilizar a mãe, enquanto corria atrás de saber o tanto de verdade que havia naquela história.

Dois anos depois, quando hospedei três jovens alemãs que vieram ao Brasil pra um trabalho fotográfico de registro dos impactos dos megaeventos nas cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro, as desapropriações já eram realidade nas favelas do Buraco Quente e do Comando, e Gerê, agora longe dali, morando na zona leste com a companheira, formado e procurando trabalho e uma nova casa pra mãe também fora dali, já era líder comunitário reconhecido e engajado não só na luta por moradia digna para os moradores da comunidade onde cresceu como para várias outras comunidades na região da avenida Águas Espraiadas, próximo ao aeroporto de Congonhas. O local, palco de uma galopante gentrificação passível de se notar no horizonte, de prédios de alto padrão que saltam aos olhos de quem vislumbra a paisagem da avenida Roberto Marinho no sentido centro-periferia, tem no cruzamento com a avenida Washington Luís os últimos resquícios de moradia popular que ainda existem e, até certo ponto, resistem.

espraiada

Diferente do que se poderia imaginar de início, as alemãs não tiveram nenhuma cerimônia em adentrar as favelas, conversar com os moradores e pedir que posassem pra fotos. Eram escoladas em espaços periféricos empobrecidos: uma viveu seis meses na Nicarágua, outra quase um ano no Togo. Mesmo assim, se somavam a mim no desgosto ao escutar as pessoas e observar aquelas casas, mais de meio século de história, agora semi-destruídas depois de desapropriadas, buracos no teto, janelas derrubadas, escadas tombadas, criando um ambiente hostil aos moradores que resolveram ficar e, ao mesmo tempo, propício às atividades de venda e consumo de drogas. A estratégia, perversa, faz parte do velho modus operandi da CDHU, a companhia de habitação do estado: dividir para conquistar. Tornar o território inabitável para forçar a saída. Premeditar quedas de luz e falta de água constante nas casas restantes, marcadas com placas numeradas que indicam o assento de cada um naquele vôo pra fora dali. Dialogar, jamais.

Em meio aos restos de história e escombros de uma vida comunitária, algumas casas, como a da mãe de Gerê, permanecem de pé. Porque, ao perceber que o processo havia realmente começado, Gerê resolveu tentar mobilizar a comunidade pra conseguir o que ele, meses depois, viria a transformar sem querer no título deste artigo: no mínimo, o máximo – era isso que lutava pra conseguir pra mãe, e pros outros que tiveram suas casas avaliadas em menos de 100 mil reais em uma localização em que o metro quadrado é dos mais caros da cidade. O máximo, no caso, era o teto oferecido pelo governo: 119 mil reais, independentemente do tamanho da casa ou do tempo de moradia. Na casa de sua mãe, ofereceram 107 mil. Não aceitou: no mínimo, queriam o máximo.

Ao contar um pouco de sua luta e sua história aos alunos do cursinho popular em que trabalho, Gerê estava visivelmente comovido. Mas não daquelas comoções tristes e chorosas de quem vê sua terra e sua vida serem arrancadas em nome do progresso. Sua fala era embargada pela luta, de quem descobriu o poder que uma comunidade organizada pode ter. Assistente social formado, residência estabelecida na zona leste, a mãe vivendo com ele enquanto aguarda a desocupação do apartamento comprado com os 119 mil batalhados e vencidos e mais algum dinheiro do bolso (apartamento este bem mais longe do que a casa no Buraco Quente, e sem vizinhos, parentes ou amigos de décadas pra amparar uma senhora entristecida pela desterritorialização), Gerê fala com orgulho de como sua visão de mundo, antes desacreditada de qualquer mudança ou de qualquer possibilidade de poder popular, mudou depois do processo. Trabalhando no Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos, participando ativamente do Comitê Popular da Copa de São Paulo, deixou de ser apenas morador da periferia pra se tornar agente de organização da luta daqueles que, como eles, foram marcados como pedras no meio do caminho da Copa.

espraiada dupla

Confesso eu que, após anos de alguma militância política e social, me encontrava bastante desanimado com as perspectivas possíveis de resistir ao absurdo da Copa. A presença das alemãs, que de começo era uma promessa de “aventura” pela cidade, descoberta de novos espaços, bairros desconhecidos, e ao mesmo tempo um intercâmbio de conhecimentos e culturas geográficas, políticas e culturais, aos poucos me fez enxergar o que o comodismo, a decepção de quem milita demais pelos centros e de menos pelas periferias e o excelente trabalho de omissão das grandes mídias e do poder público fazem questão de esconder: há luta em São Paulo, sim, e muita. Ela só não veste óculos aro grosso, não estuda nas melhores faculdades nem tem a pele e o sobrenome brancos que se encontra majoritariamente nas movimentações de classe média do centro expandido. É uma luta muita mais visceral, por algo que a maioria da minoria que se intitula a vanguarda política e cultural da cidade nunca precisou se preocupar: dignidade.

As alemãs me levaram até Gerê, mas não só até ele. Me levaram também até Jaílson, Bete, Naede, Néia, Kátia, Shesma e um monte de outras (muito mais do que outros) lutadoras e lutadores que ousam não só continuar sendo incômodos como exigir o mesmo que Gerê: no mínimo, o máximo. E que, no caminho, descobrem que o caminho da luta é, muitas vezes, o caminho da vida. Histórias que me vejo obrigado social e politicamente a contar, não por achar o máximo, mas por ser o mínimo do mínimo. Histórias que devo a meu pai, também ele um morador das favelas cariocas que encontrou seu lugar no mundo através da luta. Histórias que devo à minha mãe, que assim como todas as mulheres que encontrei nessa caminhada dedicou a vida inteira a conviver com a miséria e a pobreza que, por omissão ou ação, o Estado brasileiro, o maior violador de direitos humanos da história deste país, perpetua e reproduz nas periferias. Histórias que precisam ir de um lado a outro da imensidão da metrópole pra que o lema de Gerê, e também agora meu, seja cada vez mais de todas e todos: no mínimo, queremos o máximo. Exigimos o máximo.

Lembrando sempre que ele não deixa de ser o mínimo.

Sejam realistas, exijam o impossível!

Revoltas de Maio de 1968, na França.

(Todas as fotos são de Caroline Speisser, Cordula Heins e Lilly Bosse)

PS.: Pra quem interessar, algumas fotos do trabalho fotográfico das alemãs pode ser visto aqui: http://shift-photo-project-brazil.tumblr.com/

E, por fim, indico ainda o excelente documentário dos amigos do Mapa Xilográfico, sobre as periferias de São Paulo e a suas diversas lutas: http://mapaxiloaderiva.blogspot.com.br/

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