Operários dizem receber hora extra ilegal no Itaquerão para evitar atrasos

Tiago Dantas, Do UOL, em São Paulo

Dois trabalhadores já morreram na obra, que acumula denuncias trabalhistas

A Odebrecht não está cumprindo o acordo assinado em dezembro com o Ministério do Trabalho, segundo operários que trabalham na construção da Arena Corinthians, em Itaquera, zona leste de São Paulo. Funcionários ouvidos pelo UOL Esporte dizem que estão recebendo um salário “por fora” para trabalhar mais do que o previsto pelo acordo e evitar que a inauguração do palco de abertura da Copa do Mundo atrase ainda mais.

Um soldador que trabalha na obra contou à reportagem que espera receber um salário quatro vezes maior do que o normal neste mês devido às horas extras irregulares que está fazendo. A construtora afirma que a denúncia não procede e que não existe qualquer espécie de pagamento “por fora” aos operários. A prática, porém, já chegou ao conhecimento do Sintracon (Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil de São Paulo), que promete cobrar uma apuração dos órgãos competentes.

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A chance de que uma denúncia formal seja feita, entretanto, é pequena. Muitos operários acreditam que ficarão sem emprego após 15 de abril, quando a obra deve acabar. A hora extra que eles afirmam receber “por fora” os ajuda a fazer uma reserva de dinheiro para os meses seguintes. “Os chefes falam: ‘Daqui a pouco acaba a obra. Aproveita para fazer um pé de meia.’ Para mim, vale a pena”, afirmou um operário, de 31 anos, que não quis se identificar.
Hora a mais não aparece no cartão de ponto

Outro problema é que a suposta fraude não deixa rastros, o que dificulta a fiscalização. Por contrato, os funcionários da Odebrecht trabalham 7,5 horas por dia e tem direito a uma hora de almoço. Após 19 de dezembro, quando a empresa assinou um acordo com o Ministério do Trabalho, ficou combinado que cada trabalhador poderia fazer até 2 horas extras diárias. Antes, segundo os funcionários, havia jornadas de até 16 horas.

Quem aceita receber a hora extra irregular “por fora” é orientado a bater o ponto após trabalhar 10,5 horas – o que é permitido pelo acordo com o Ministério do Trabalho. Oficialmente, essas pessoas saíram do canteiro de obras no horário combinado. Mas não é isso que acontece. Alguns trabalhadores voltam ao batente por mais duas ou três horas. O pagamento desse valor adicional é feito em dinheiro, sem registro no holerite. Ainda de acordo com os relatos, ninguém é obrigado a aceitar esse regime de trabalho.

“Eles [os chefes] falam para a gente: ‘Não pode atrasar’. Ainda tem muita coisa pra fazer e às vezes é melhor mesmo você trabalhar umas horinhas a mais num dia para terminar uma tarefa e já começa num ponto mais a frente no dia seguinte”, diz um ajudante de pedreiro, de 23 anos, que, assim como os outros trabalhadores que conversaram com o UOL Esporte, pediu para não ser identificado.

Orientação para não dar entrevista

Os depoimentos foram dados entre os dias 7 e 10 de janeiro do lado de fora do canteiro de obras. Além do medo de perder o salário adicional, os funcionários da construtora disseram que foram orientados a não dar entrevistas. “Teve uma palestra no fim do ano para falar pra gente tomar cuidado com a imprensa, pra não ficar falando qualquer coisa porque isso só atrapalha a gente”, declara o ajudante de pedreiro.

O salário de um ajudante é de R$ 1.300, de acordo com o jovem. Com todas as horas extras que tem feito, ele espera receber mais de R$ 5.000. Um soldador ouvido pela reportagem afirmou que vai tentar tirar R$ 7.000 por causa do trabalho extra não contabilizado. “Isso não é só aqui. Muita obra tem isso. Tem uma pressão para entregar tudo no prazo. E o que não falta para essas firmas é dinheiro. Então acabam pagando mais.”

“Infelizmente o trabalhador tem medo de denunciar esse tipo de coisa porque precisa do dinheiro. Mas entre o dinheiro e a vida, fico com a vida. Trabalhar muitas horas pode ser perigoso numa obra como essa”, afirma o deputado estadual Antonio de Sousa Ramalho (PSDB-SP), presidente do Sintracon. “O Ministério do Trabalho tem que investigar essas denúncias. Se tem um acordo de horas extras, ele tem que ser cumprido.”
Construtora desmente denúncia

“As alegações não procedem”, informou a Odebrecht por meio de nota. “A Odebrecht ressalta que a jornada de trabalho em exercício na construção da Arena Corinthians foi definida em comum acordo com o Sindicato dos Trabalhadores da Indústria da Construção Civil Pesada, estando alinhada com a legislação trabalhista e com o termo de compromisso firmado com o Ministério do Trabalho no dia 19 de dezembro de 2013, não havendo qualquer espécie de pagamento ‘por fora’.”

A Odebrecht informou, também, que tem cumprido o acordo assinado com o Ministério do Trabalho. A empresa havia se comprometido a “contratar 80 trabalhadores adicionais ao quadro da obra, sendo que tal meta já foi praticamente cumprida, e será superada nas próximas semanas, chegando a 100 contratações nos próximos dias”, conclui a nota.

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