Uma Copa que não terá campeões

Luís Felipe dos Santos, do Impedimento

Uma significativa vitória da sociedade aconteceu quando, nos protestos de junho de 2013, a mídia corporativa desceu dos helicópteros e foi para a rua. Essa vitória está simbolizada no dia 13, quando, usando imagens aéreas, Datena perguntou aos seus teleespectadores se eles são favoráveis ao protesto com baderna e eles responderam que “sim”. No mesmo dia, um repórter fotográfico (Sérgio Silva) ficou cego de um olho pela Polícia Militar e a repórter Giuliana Vallone também foi atingida no olho por uma bala de borracha.

Oito meses se passaram e a mesma Band que tem Datena em seus quadros chora a morte de Santiago Andrade, cinegrafista empregado da rede de TV, em um protesto no Rio de Janeiro. Atingido por um rojão disparado por um manifestante.

Além de todos os simbolismos envolvidos, há um crucial: no dia seguinte, 10 de fevereiro, houve uma outra manifestação contra o aumento da passagem no Rio de Janeiro. Relatos esparsos de redes sociais mostram que ativistas foram levados pela Polícia Militar, que não deu detalhes do que faria com eles. As redes de TV, todas elas, voltaram para os helicópteros. Não há imagens da rua.

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Santiago não é a primeira pessoa a morrer em uma manifestação, mas é a primeira que morreu porque estava lá trabalhando.

Outras vítimas aconteceram: a gari que teve uma parada cardíaca após inalar gás de pimenta em Belém; o jovem de 18 anos que foi atropelado; e no mesmo protesto em que Santiago foi alvejado, um aposentado fugiu do confronto e foi morto por um ônibus.

Santiago, porém, estava lá por obrigação, cumprindo o papel da sua profissão e da pauta determinada por seus editores. Isso não faz da morte dele mais importante que a dos outros três, mas torna a sua morte um fato político. A reação da mídia corporativa, assim como dos jornalistas, tem consequências mais sérias e repercussões mais drásticas. Tanto é que Paulo Paim, um senador petista, resolveu passar por cima da Comissão de Direitos Humanos do Senado na aprovação da Lei Anti-Terrorismo.

(Creio que é dever de todo cidadão brasileiro ler a Lei Anti-Terrorismo a partir de agora. Nada pode ser menos claro que “infundir terror ou pânico generalizado”. Somente a INCITAÇÃO a isso pode render oito anos de cadeia. Um texto sobre o perigo iminente de morte no Metrô de São Paulo no horário de pico poderia ser enquadrado como incitação ao terrorismo, por exemplo. É uma lei de incitação à paranoia.)

Se você, neste momento, está indignado com o fato de que a repercussão da morte de Santiago rendeu um editorial no Jornal Nacional, não questionarei: mas é assim que o jogo funciona. Se a morte de Santiago caísse no colo da Polícia Militar, como quase aconteceu em junho de 2013, é provável que a pauta “desmilitarização da polícia” estivesse na ordem do dia de todos os veículos de imprensa nacionais. Na era da informação, a repercussão dos fatos é tão ou mais importante que os próprios fatos, e os rolezinhos fake estão aí para provar.

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Em uma sociedade violenta como a brasileira, era improvável que a palavra de ordem “sem violência” de junho de 2013 demorasse muito tempo.

Antes dos protestos de junho, o Brasil era o 3º país com maior número de mortes de jornalistas. Em 2012, foram mais de 50 mil assassinatos, mais de 500 mil crimes contra o patrimônio, mais de 50 mil mortes no trânsito e estupros, como descreve o texto brilhante do Fernando Graziani.

Está correto quem vê com outra proporção a “violência de Estado” praticada pela Polícia Militar. Ao mesmo tempo, é difícil medir o que é violência individual e o que é de Estado: no momento em que 64% dos policiais se veem como despreparados para manifestações, fica claro que existe um cenário de omissão, onde a raiva individual e a excitação coletiva acabam superando a orientação técnica ou política.

O resultado é um jogo de “morde-assopra”, no qual os policiais variam entre a omissão completa e a agressão deliberada, com raros lapsos de racionalidade. Esse jogo já minou as manifestações de junho no ano passado – assim que a catarse coletiva tornou-se um teatro para destruição de patrimônio a esmo, a maioria silenciosa saiu da rua. Ao lado desse teatro, a censura de opinião, as agressões a jornalistas, as respostas agressivas nas redes sociais, colocaram um quepe de general na cabeça de cada ator político. Todos parecem levar pequenos exércitos de opiniões e opinadores dispostos a matar e morrer por uma ideia, perpetuando um insano diálogo de surdos.

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Eu acreditava, na minha ingenuidade, que as jornadas de junho poderiam ser o estopim para um novo pacto, um novo contrato social, no Brasil. O que elas fizeram, até agora, foi apenas mostrar a fragilidade do nosso contrato social.

Desde o país artificial dividido em linha reta até a Copa que ninguém perguntou e todos vamos pagar, o contrato social brasileiro é um morde-assopra entre a cordialidade consentida e a violência sem razão de ser. As conquistas sociais são obras de abnegados que eventualmente obtém algum espaço político, ou movimentos de classes dispostos a romper barreiras. Quando o “monstro” da opinião pública foi às ruas, os governantes se esconderam nos seus gabinetes, tentando articular pactos de gabinetes que se tornaram tão frágeis que nem saíram dos gabinetes. Diante de um cenário que pedia a horizontalidade, com o aumento de participantes ativos no jogo democrático – seja construindo suas próprias mídias, seja criando núcleos de influência muito mais dispersos que o Jornal Nacional – quem manda no País enredou-se na cordialidade consentida (entre os seus) e na violência sem razão de ser (contra os outros).

A Lei Anti-Terrorismo, com a Copa como pano de fundo, é apenas mais um desses capítulos: governistas acostumados com greves, como Paulo Paim, colocam um ato patriótico hardcore para satisfazer ilhas de influência, e que se dane o “terrorista” que ficar na outra ponta, sendo torturado por policiais militares, espancado dentro de casa na favela ou atirado em um presídio para servir de soldado de alguma facção do PCC.

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No meio disso tudo, existe o papel imprescindível da mídia na era da informação. O papel da informação completa, analítica, didática, evitando a boataria e a falta de credibilidade.

O jogo político-social faz a morte de Santiago tornar-se mais problemática porque o papel da mídia, no imaginário social, está em mostrar para todos o que está acontecendo. Em denunciar os atos de violência. E a morte de Santiago, como referido no primeiro parágrafo, tirou as redes de televisão da rua e colocou nos helicópteros.

Não há vencedores quando Santiago morre. Você pode pensar o que quiser da mídia corporativa, e tem o direito disso, mas ela está ali cumprindo um papel na democracia. Ainda que o contrato social seja frágil, ainda que a sociedade seja desigual, ainda que a bobagem supere a relevância, se você tem um direito humano infringido e está diante de uma câmera de TV, o correto é você virar notícia. Se está operando a câmera de TV, mais ainda.

Se o contrato social brasileiro é frágil, é dele que depende a democracia. Se ele vai ser puxado e atacado de todos os lados, existem duas formas de agir: usando as nossas forças para atacar e provocando o conflito social, entre classes ou não; ou usando as nossas forças para garantir os direitos humanos, a convivência pacífica, a democracia direta.

É essa a encruzilhada em que estamos. Eu, sinceramente, não sei o que temos a ganhar com o conflito social institucionalizado. E se a democracia direta não nos satisfaz, há meios de mudá-la, que não sujam as mãos de sangue.

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