Copa para quem?

Texto do Comitê Popular da Copa SP publicado no Brasil Post

Muitos se mostraram e ainda parecem estar perplexos com a insatisfação de grande parte da população brasileira com a Copa do Mundo de 2014: como o país do futebol, onde quase todos carregam consigo uma história de paixão por este esporte, protesta contra seu maior evento? Entre o ardor pela bola e o descontentamento geral, o que se perdeu?

A surpresa e suposta contradição ficou ainda mais saliente quando em julho de 2013, durante a Copa das Confederações, cerca de um milhão de pessoas participaram de manifestações durante os jogos e o coração e olhos de grande parte da população estavam juntos aos ativistas e não às seleções. Diversas pesquisas de opinião, desde o início dos protestos massivos de 2013 até às vésperas do Mundial 2014, revelam que poucos concordam com o megaevento – segundo estudo do Datafolha em maio, 66% afirmam que a Copa trará mais prejuízos que benefícios.

Se, há três anos, quando perguntávamos “Copa pra quem?” poucos tinham clareza da resposta, hoje, quase ninguém discorda que este Mundial já tem seus grandes campeões.

O incremento de R$ 110 bilhões na economia nacional ocasionado pela Copa ficará nas mãos de poucos. A Fifa, uma associação sem fins lucrativos mas com ganho de cerca de US$ 100 milhões por ano, já anunciou que terá o maior lucro de sua história – R$ 10 bilhões. Seus parceiros comerciais como Cola-Cola, Adidas e Mc Donalds terão o monopólio das vendas nos estádios, festivais e seus arredores além de exclusividade nos produtos do Mundial 2014. Alguns poucos empresários e empresas brasileiras, sobretudo as grande construtoras (Andrade Gutierrez, Odebrecht, OAS e Camargo Correia) e outras patrocinadoras nacionais do evento, também se beneficiaram com altas taxas de lucro.

O prometido legado social da Copa tampouco trará benefícios a maior parte da população, menos de 20% das obras em mobilidade urbana, que trariam melhorias em ônibus, trens, metrôs e aeroportos, foram concluídas, e um terço destas foram canceladas. As que foram concluídas, ainda, são a maioria obras de expansão dos aeroportos. Ou seja: quase nada de novo ficará como legado para o transporte público.

#VaiTerViolação

Apesar da grande mentira anunciada desde 2007 de uma “Copa Privada”, segundo a qual os estádios seriam custeados pela iniciativa privada, ter sido escancarada, com menos de 1% dos custos da Copa tendo saído dos bolsos de empresários, não são os custos do megaevento aos cofres públicos a dimensão mais nefasta do Mundial no Brasil. A questão mais urgente que devemos enfrentar é a violação de direitos humanos, o custo social da Copa. E neste aspecto, infelizmente, ela já começou e estamos perdendo de goleada.

Dez trabalhadores morreram apenas na construção dos estádios; entre 170 e 250 mil pessoas foram removidas de suas casas sem direito à indenização – além das milhares expulsas pela especulação imobiliária; houve aumento dos casos de exploração sexual, incluindo crianças e adolescentes, e do tráfico de pessoas; a população em situação de rua está sendo expulsa violentamente dos centros urbanos; dezenas de manifestantes ficaram feridos pela repressão, outros muitos sofrem perseguição política; e pequenos comerciantes, artistas de rua e milhares de trabalhadoras e trabalhadores ambulantes (138 mil apenas em São Paulo), além de catadores de materiais recicláveis, estão proibidos de exercer seu trabalho nas zonas de exclusão – um raio de 2km (protegido por cerco militar) de exclusividade da Fifa ao redor dos estádios e Fan Fests, onde só circula quem tem ingresso.

Autoridades e empresários buscaram justamente na paixão popular do brasileiro pelo futebol a legitimidade para realizarem seus negócios e justificarem as violações. Mas, nem mesmo o futebol sobreviveu à Copa das Copas: sumiram as arquibancadas e chegaram as “arenas” de padrão Fifa; o preço dos ingressos disparou, com alguns chegando a R$ 2 mil (cerca de três vezes o valor do salário mínimo). Nos novos “estádios de exceção”, o futebol é para poucos.

As violações continuam com o incremento do aparato repressivo: R$ 2 bilhões foram gastos com segurança pública, sendo R$ 54 milhões apenas para a compra de armamentos. Policiais foram treinados por grupos militares de Israel e França. Novos batalhões e centros de controle pelas cidades foram criados. Tribunais de exceção ao redor dos estádios, com penas ampliadas e sem o resguardo do direito à ampla defesa, princípio básico de qualquer democracia, serão instalados. Novas legislações permitem enquadrar movimentos sociais como terroristas. Prisões “preventivas” de manifestantes já foram anunciadas como previstas para o período do torneio. E isso tudo em um país conhecido mundialmente por ser, supostamente, habitado por um povo hospitaleiro. A quem se voltam, então, todas essas medidas?

A população pobre, negra e periférica, que lidera as infelizes estatísticas de assassinatos por parte da polícia nas periferias do país, fornecem uma resposta clara e histórica para essa pergunta.

Futebol pra quem?

O Brasil ficou conhecido mundialmente como o grande país do futebol, e seu povo como um dos maiores amantes deste esporte. Estudiosos como o antropólogo Roberto da Matta apontaram a centralidade do futebol na identidade brasileira e a importância do estádio como espaço social de criação e festa popular, ocupando um papel entre o espetáculo carnavalesco e o erudito. Muitas das manifestações culturais, sociais e políticas no Brasil foram construídas nos estádios entre os torcedores. Basta lembrar que, durante o regime militar, as primeiras faixas públicas pela anistia foram erguidas nas arquibancadas.

Mas, desde os anos 1990, muito mudou no cenário futebolístico brasileiro, que apenas acompanhou uma tendência mundial. Assistimos ao rápido avanço de novas estratégias comerciais conectadas ao esporte, junto ao progressivo aumento de influência das grandes corporações televisivas sobre os jogos e um processo crescente de militarização dos estádios, que passaram a ficar cada vez menos acessíveis às classes populares – tradicionais ocupantes das arquibancadas.

Isso se manifestou no surgimento de jogadores pop-stars, verdadeiros produtos do marketing e da grande mídia; na mudança do publico dos estádios, com aumento crescente no preço dos ingressos; na abertura dos clubes ao patrocínio de grandes empresas e até mesmo do capital financeiro; e na criação de um aparato repressivo e legislativo em torno dos torcedores, censurado gradativamente as suas práticas sob um discurso de conter a violência – algo parecido com o processo desencadeado por Margareth Thatcher na Inglaterra após a tragédia de Hillsborough.

Tudo isso já estava em curso, mas a Copa do Mundo acelerou, em grande medida, esse processo no Brasil: com a ajuda da Fifa, o futebol passou a ser um espetáculo, o estádio um shopping center e os torcedores, simples consumidores. Os múltiplos sentidos e paixões foram esvaziados e a própria participação popular colocada em cheque.

Os estádios das 12 cidades-sede do Mundial 2014 foram construídos ou reformados segundo exigências da Fifa: os trabalhadores e trabalhadoras ambulantes perderam seus espaços de venda, grandes empresas passaram a ter o monopólio do comercio no local, as arquibancadas foram substituídas por assentos pouco espaçados e os torcedores e trabalhadores passaram a ser vigiados por um complexo sistema de segurança privada – apelidado de “big brother”. Cada passo dentro das arenas será vigiado e uma série de comportamentos tradicionais nos estádios não são mais permitidos.

Sinalizadores, baterias, bandeiras, fogos de artifício, papel picado, nada disso estará permitido; não pode entrar com comida e bebida e nem haverá mais hot dog ou qualquer barraquinha próxima ao estádios, apenas dentro deles, e a preços exorbitantes; não são permitidas roupas ou faixas que ostentem declarações políticas ou remetam a outras identificações comerciais que não as dos patrocinadores do evento; entre outras exigências da Fifa.

O Complexo Maracanã S.A., a sociedade que passou a ser proprietária do tradicional estádio carioca, resolveu estender as regras para seus funcionários com exigências de “barba feita”, uso de desodorante e de não ter tatuagens visíveis. Neste mesmo plano, a empresa ainda explica que seu publico alvo são indivíduos com casas de veraneio, cavalos e barcos próprios, que dirigem carros importados e consomem whisky de alto padrão.

Será que ainda é de se assustar a falta de empolgação dos brasileiros com a Copa das Copas?

Como afirmou Juan Arias: “É como se o Brasil estivesse dizendo que, tal qual andam as coisas nesse campo, não lhe interessa a Copa, nem jogá-la nem ganhá-la. Que a paixão pelo esporte está sendo trocada por uma operação capitalista cuja máxima expressão são as tramoias da Fifa, as quais estão matando o verdadeiro futebol”. Da mesma forma, mais da metade de estudantes do ensino médio de uma escola pública nos contaram que “não torcerão pelo Brasil”.

Mas, entre os rios de dinheiros e de violações da Fifa, da CBF, das empresas e dos governos, a paixão popular ainda resiste: nos pés descalços, nas ruas, nas praças, parques e nos campos de várzea. E é isso que vimos durante as duas edições da Copa Rebelde, um evento organizado pelo Comitê Popular da Copa de SP e movimentos parceiros de forma autogestionária e horizontal.

Na peleja, se encontraram homens, mulheres e crianças, indígenas, imigrantes e visitantes palestinos, ativistas ligados à luta pela moradia popular e pelo direito da mulher, coletivos que querem a descriminalização das drogas e a “descatracalização” da vida, movimentos que exigem a “terra livre” na cidade e no campo e também o “passe livre” no transporte público, moradores em situação de rua e muitos outros, ameaçados de remoção, reprimidos, segregados, invisibilizadis. Uma infinitude de bandeiras, muitas das quais permaneceram estendidas ao redor dos campos, que se convergem na luta pelo direito à cidade e contra a Copa da FIFA.

A experiência da Copa Rebelde mostrou que outra Copa do Mundo, popular e organizada de baixo pra cima, é possível. E este é o recado que que queremos levar para o mundo todo.

Deixe uma resposta

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s