Nota de repúdio ao assassinato do trabalhador ambulante Augusto Muniz Braga

CHEGA DE MORTES E DE PRISÃO! FASCISTAS NÃO PASSARÃO!

 

O Comitê Popular da Copa vem, por meio desta nota, demostrar repúdio à ação da PM ocorrida ontem (dia 18) na Lapa, que terminou com o assassinato do trabalhador ambulante Carlos Augusto Muniz Braga com um tiro na cabeça. Esse fato possui duas características extremamente preocupantes: 1) a perseguição e criminalização das pessoas que trabalham como venderoras ambulantes, situação que aumentou drasticamente durante o período da Copa do Mundo da FIFA no Brasil; 2) a letalidade das ações policiais.

Ao contrário do afirmado hoje (dia 19) pelo prefeito Fernando Haddad junto com o comandante geral da PM, Benedito Roberto Maia, o assassinato do ambulante realizado não foi fruto somente de um “erro isolado” do PM Henrique Dias Bueno de Araújo. Esse mesmo policial responde pela morte de um outro homem também durante uma abordagem há cerca de seis meses. Além disso, esse tipo de ação não se restringe somente a um ou outro policial. E basta uma rápida pesquisa para desconstruir esse discurso.

De acordo com dados divulgados pelo Instituto Sou da Paz, no primeiro trimeste deste ano, 163 pessoas foram assassinadas pelas polícias no Estado de São Paulo. Isso significa um aumento de 136,2% em comparação às 69 mortes no mesmo período de 2013. E quando tratamos especificamente da cidade de São Paulo, o aumento é ainda mais assustador: de janeiro a março de 2014, as polícias assassinaram 89 pessoas, o que representa 206,8% a mais do que no ano passado, quando o número chegou a 29 mortes.

Isso sem contar as mortes que não foram computadas e os desaparecimentos, espancamentos, humilhações e abordagens violentas realizadas cotidianamente nas quebradas e favelas. Vale lembrar que todas as polícias compõe o braço armado do Estado, da GCM até a Polícia Federal. Logo, quando as/os policiais vestem suas fardas, tornam-se parte do Estado. E assim, quando matam, puxam o gatilho em nome de um Estado genocida.

Por isso, é necessário que lutemos pela desmilitarização com uma perspectiva de extinção de todas as polícias! Nós não engulimos o discurso de que o assassinato de Carlos Augusto Muniz Braga foi um fato isolado! Quem puxou o gatilho foi sim o PM Henrique Dias Bueno de Araújo, mas de mãos dadas com o governador Geraldo Alckmin, o secretário de segurança pública Fernando Grella, e o prefeito Fernando Haddad, que mesmo não sendo responsável pela PM, se omitiu e fechou seus olhos para a truculência policial! O silêncio também alimenta essa violência!

Chega de mortes e de prisão! Fascistas não passarão!

Comitê Popular da Copa, 19 de setembro de 2014.

 

 

A gestão antiperspirante: rumo à pobreza inodora, incolor e insípida

Luciana Itikawa

      “Antiperspirante é a substância que inibe a saída de suor quando aplicada topicamente. De uma maneira simplificada, o antiperspirante impede que o suor surja na pele e se encontre com as bactérias que estão ali e, assim, também evita o mau cheiro. Nesse ponto, ele é completamente diferente do desodorante, que é um produto que não impede a transpiração, mas apenas a liberação do mau cheiro.” (site de empresa de cosméticos)

 

Em menos de uma semana, dois episódios sobre o comércio ambulante mostram a capacidade mágica de ocultação da pobreza, quando ela teima em aparecer, porém, de forma trágica, com a morte de três ambulantes: um em São Paulo e dois no Rio de Janeiro neste mês de Setembro de 2014.

A morte, com certeza, é o extremo da gestão militarizada de uma questão, entre outras, urbana. Apesar de todo o esforço dos governos em aumentar e complementar seu efetivo repressivo às várias manifestações da pobreza, esses trabalhadores continuarão a expor seus suores, enquanto esta não for um espectro que aparece apenas nas estatísticas.

O comércio ambulante está profundamente ligado à constituição do trabalho livre no Brasil e à permanência sistemática de trabalhadores à margem do mercado formal de trabalho, malgrado um dos maiores índices de formalização de carteiras profissionais da história recente.

Por que, então, os ambulantes “teimam” em aparecer e desafiar esses policiais armados nas grandes cidades? Por que, eles ainda estão trabalhando, apesar do Prefeito paulistano anterior ter proibido todas as licenças na cidade em 2012? Por que eles são permitidos em alguns locais e em outros não? Aqui vão algumas ponderações:

Em primeiro lugar, por que, então, eles insistem em desafiar o Estado trabalhando sem licença? Existem 138 mil ambulantes no município e 158 mil na região metropolitana de São Paulo segundo o DIEESE em 2010, apesar do atual número irrisório de licenças na cidade (1.940) representando apenas 1,4% do total de trabalhadores no município. Os outros cerca de 136.000 trabalhadores, portanto, são obrigados a correr diariamente para fugir da fiscalização. O ambulante morto na Lapa, Carlos Augusto Muniz de Souza, de 30 anos, era um deles. Ele havia prometido à esposa na noite anterior: “Não vamos mais correr da polícia”. Não deu tempo, esta morte faz parte da manutenção da ocultação da pobreza através da interface armada do Estado. A Operação Delegada atua na superfície visível da ponta do iceberg daqueles que estão à margem simultaneamente do direito ao trabalho, direito à cidade, direito à proteção social, etc. Vide a violenta reintegração de posse de um imóvel realizada pela polícia militar ocorrida pouco dias antes no Centro de São Paulo.

Em segundo, por que ainda permanece o limbo jurídico sobre a regulamentação das licenças deles? O prefeito anterior proibiu todas as licenças e mesmo aqueles 1.940 que ainda as teriam, enfrentam o constrangimento de trabalhar há 2 anos por força de uma liminar da Justiça cuja fundamentação foi calcada no direito à cidade. A Ação Civil Pública movida pela Defensoria Pública do Estado de São Paulo e pelo Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos ainda precisa ser julgada para que o impasse institucional entre Prefeitura e Justiça se resolva. Apesar da tentativa dos trabalhadores e da sociedade civil terem instituído no ano passado um canal de diálogo quinzenal com a Prefeitura por 6 meses para resolver politicamente, nada avançou para a resolução do problema.

Em terceiro, por que o abismo entre o número de licenças e o número total de ambulantes que trabalham por toda a cidade? Para quem frequenta todo dia os terminais intermodais espalhados nas periferias para embarcar ou fazer a baldeação às 5-6hs ou 21-22hs já deve ter visto algumas dezenas de ambulantes servindo a imensa população que se desloca entre casa- trabalho. Isso não seria novidade para ninguém se não tivéssemos a dimensão de que quase um estado de Sergipe inteiro (1,9 milhão) se movimenta todos os dias de um lado pro outro na região metropolitana, segundo o estudo A Mobilidade pendular na Macrometrópole paulista. Este estudo mostra que apesar do crescimento da população da região metropolitana ter estacionado, seus movimentos pendulares quase duplicaram (de 1,1 milhão em 2000 para 1,9 milhões em 2010). Esses espaços de conexões de transporte passaram a ser territórios de comércio e serviços a essa imensa população itinerante, apesar das leis e secretarias de transporte subestimarem este fato.

Por este motivo, os trabalhadores ambulantes em 2013 se organizaram e conseguiram incluir pela primeira vez em um Plano Diretor do município de São Paulo, a necessidade desse comércio atender esse imenso fluxo de pessoas pelo território. Este coletivo de trabalhadores, chamado de Fórum dos Ambulantes, se organizou em 2012 para participar das audiências públicas do Plano Diretor e encaminhou três propostas, apesar de apenas uma ter sido incorporada: “criação de centros comerciais populares em áreas de grande circulação, como terminais de transporte coletivo e estações de metrô e trem” (pag. 10 DOM – Centralidades Polares e Lineares).

Em quarto, por que eles são permitidos em alguns locais e em outros não? Existe apenas um tipo de licença no espaço público, a “permissão de uso”, que é dirigida aos artesãos, jornaleiros, ambulantes, food trucks e até parklets. Por se tratar de ocupação em logradouros públicos, a permissão tem que ser precária e sem segurança na posse, ou seja, pode ser retirada unilateralmente pelo Poder Público. Entretanto, por que a vista grossa em alguns locais e a intolerância em outros? O comércio ambulante faz parte das inúmeras manifestações de pobreza que têm sido exterminadas dos espaços públicos e privados das áreas em valorização quando estes ameaçam os interesses imobiliários ou políticos. A desculpa é quase sempre a execução de obras de infraestrutura, transporte, etc., mesmo quando aquilo que ocupar o lugar seja o mesmo tipo de atividade, porém, mais elitizado. Esse é, por exemplo, o caso dos food trucks, que conseguiram 900 licenças no município; ou das empresas de bebidas durante a Copa, que conseguiram o direito de ocupar todo o Vale do Anhangabaú para comercializar com exclusividade seus produtos.

Os trabalhadores ambulantes da cidade real não são um fato isolado a ser vencido por força da cidade legal. As manifestações de pobreza irão sempre desafiar as gestões que ainda creem governar pela pobreza, contanto que elas não tenham cheiro, nem cor e nem gosto.

 

Referências:

– Não vamos mais correr da polícia:

http://brasil.elpais.com/brasil/2014/09/20/politica/1411175724_941556.html

– A Mobilidade pendular na Macrometrópole paulista:

http://www.scielo.br/pdf/cm/v15n30/2236-9996-cm-15-30-0433.pdf

 

Luciana Itikawa, arquiteta e urbanista, doutora e pesquisadora pela Universidade de São Paulo.

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