Cada quebrada com sua copa do mundo

São Paulo, 12 de outubro de 2011

Muito se tem falado sobre os “mega-eventos” – a Copa do Mundo de 2014, as Olimpíadas de 2016; de um lado, o entusiasmo hipócrita dos Galvões Buenos da vida, apelando aos berros à estupidez nacionalista e tentando nos vender caro o “espetáculo” dos esportes. De outro lado, os jornalistas e comentaristas falando com gravidade, mas com o mesmo cinismo, sobre os atrasos nas obras e o receio de “fazermos feio” (como se esses atrasos não estivessem previstos, já que são sempre usados como forma de “flexibilizar” as licitações e facilitar ainda mais os superfaturamentos, os desvios de verba, a corrupção e, assim, permitir ao Estado que cumpra ainda melhor uma de suas principais funções, que é a de promover grandes redistribuições de renda em favor dos ricos, ou seja, entregar às grandes empresas o dinheiro que o Estado toma de todos nós).

Em meio a toda essa falação, raramente são discutidas algumas das consequências mais diretas dos tais mega-eventos e a lógica que eles seguem. Um aqui ou outro acolá consegue espaço para falar dos milhares de despejos que a construção dos estádios de futebol e o alargamento de vias vão produzir.

Mas que diabos tem a ver a Copa do Mundo com, por exemplo, a questão dos despejos no extremo sul de São Paulo? Afinal, aqui não vai ter jogo, e o gringo não vai passar por nossas redondezas quando se deslocar do aeroporto ao hotel ou ao estádio de futebol.

De fato, em São Paulo, com importantíssimas exceções, como as favelas da Paz e da Fatec, em Itaquera, ameaçadas pela construção do Itaquerão (futuro estádio do Corinthians), as obras da Copa não vão afetar diretamente a maioria das comunidades mais pobres, que se concentram nas periferias.  O problema é que cada periferia tem sua Copa do Mundo, uma cortina de fumaça que justifica despejos violentos em função de obras cujo propósito é entupir de dinheiro os bolsos de políticos e empresários, esconder a pobreza e alimentar a especulação imobiliária – a cruel mágica de transformar a terra, que poderia nos abrigar ou nos alimentar, em dinheiro para uns poucos.

Ao mesmo tempo, cada cidade-sede tem suas próprias periferias, aqueles espaços e aquelas pessoas que não estão no centro dos interesses do Estado nem dos empresários. Algumas das periferias que já existiam muito antes de se tornarem um obstáculo para esses grandes “espetáculos” (de valorização) das cidades hoje estão sendo expulsas diretamente pelos despejos ou contidas sob as armas de “novos chefes fardados”. Isso acontece com algumas das “periferias do centro” no Rio de Janeiro, com as remoções e as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Mas ao mesmo tempo em que pessoas são retiradas das comunidades desses morros do Centro e da Zona Sul, outras entram em seu lugar. Esses espaços, que antes eram periféricos, começam a ficar importantes. Mas importantes para quem? Será que antes já não eram importantes para os/as moradores/as? Sim, mas agora são importantes para outro grupo: os empresários (do turismo e do Estado).

Mas se isso está puxando algumas “periferias do centro” para perto do centro dos interesses, para onde vão as pessoas que antes estavam ali? Para isso que os grandes eventos não só produzem e reforçam “novos centros”, mas também criam e aumentam as periferias dos limites da cidade. Quando saem de suas antigas comunidades (seja por serem removidas, despejadas ou porque a vida começou a ficar muito cara por ali), as pessoas precisam buscar outros locais para morar. Assim, muitos acabam indo ou voltando para as áreas mais distantes dos centros de emprego e serviços públicos, aumentando a população que precisa se virar longe de qualquer benefício da cidade e piorando ainda mais a situação de quem já luta todo o dia para vencer a dificuldade de não ter sistema de esgoto, de água, energia, educação, saúde, transportes… É assim também que a Copa do Mundo (e as Olimpíadas, no Rio de Janeiro) chega mesmo onde não terá estádio, jogo, atleta ou gringos. Ela vai além da cortina de fumaça.

No extremo sul de São Paulo, nossa Copa do Mundo é principalmente o discurso ambiental. Com ele, os mesmos desgraçados que mandam construir o Rodoanel numa enorme área preservada em meio à represa dizem que a culpa da destruição ambiental é da família da dona Maria ou da dona Joana, que moram perto dessa represa porque não tiveram opção. Mas o que para os empresários é um discurso ambiental, uma espécie de propaganda mentirosa que faz com que outros queiram comprar os produtos ou serviços da sua empresa, para o seu João ou seu Francisco é o grande medo de ficar sem um teto. Nessa época de grandes espetáculos, não importa o que está por trás dos eventos. O que importa é a maquiagem que ele vai ganhar para ficar bonito aos olhos de quem vem gastar nele. No Rio de Janeiro também várias situações mudam de nome. Quando a dona Rosa volta para casa depois de um dia inteiro de trabalho ela encontra a sigla “SMH” pintada na sua parede. É assim que a Secretaria Municipal de Habitação transforma os despejos em “programa habitacional”.

Nota sobre os autores

A  Rede de Comunidades do Extremo Sul é um movimento popular recém-criado na zona sul de São Paulo, que tem como proposta a organização autônoma do povo da periferia, sem depender de politiqueiros nem de patrões nem da migalha de quem quer que seja. Propomos a união das quebradas e a luta direta como meio de melhorarmos a nossa condição de vida e combatermos as formas de opressão e de exploração que sofremos todos os dias. Junto com tant@s lutador@s, que ao longo da história se rebelaram, sabemos que nossas conquistas e nossa liberdade serão frutos de nossos próprios esforços! É por isso que caminhamos. Contatos:  redeextremosul.wordpress.com e  redeextremosul@gmail.com.

O  Pela Moradia é um coletivo que surgiu para prestar apoio e solidariedade à luta popular pelo direito à moradia. Até agora, temos feito isso através do blog (http://pelamoradia.wordpress.com/), da colaboração direta com algumas das ocupações do movimento dos sem-teto do Centro do Rio de Janeiro e da busca pela formação de uma rede de comunicadores e comunicadoras populares que abordam e apóiam a luta por moradia. Queremos agregar, documentar e produzir informações sobre o ataque a esse direito fundamental sem nos sobrepor aos outros canais de comunicação alternativa. Pensamos, afinal, que a comunicação pode ir muito além da divulgação e ajudar diretamente a organização popular autogerida e horizontal na qual acreditamos.

Fonte: Passa Palavra

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